AUTOIMAGEM E AUTOESTIMA
- João Machado
- 22 de mar. de 2021
- 6 min de leitura

Um grande desafio para a maioria das pessoas é construir e sustentar uma imagem razoavelmente coerente, confortável, se possível, e realista ao mesmo tempo de quem sou eu. Não é como os outros me percebem.
Isso está ligado à minha auto imagem e também à repercussão disso à minha autoestima e ao meu bem estar. Há um pequeno grupo de pessoas que não têm que se preocupar com isso e ao final do vídeo eu vou falar desse grupo, mas a grande maioria da humanidade tem isso como um desafio e a questão é: como é que se constrói esse eu? E aí nós vamos ter que voltar um pouco no tempo para imaginar uma criança com mais ou menos, ou você quando tinha essa idade, com 8, 9 meses de idade. É uma época em que fica mais claro em experimentos de psicologia, experimento simples que se pode fazer, que a criança está começando a construir de maneira nítida uma noção do eu e daí do outro, concomitantemente. Piaget tem um experimento fantástico sobre isso, simples. Ele propõe você pegar um batom vermelho, por exemplo, e traçar uma linha diagonal na testa do seu filho e colocar seu filho diante de um espelho. Em algum momento, nessa faixa etária, a criança se reconhece no espelho, se olha e tenta tirar, ou estranha e passa na mão em cima desse risco. Isso é uma prova concreta de que ela já está no ponto de se reconhecer naquela imagem e saber que alguém está naquela imagem, que é ela mesma.
Quando isso acontece, na verdade, já está acontecendo uma revolução na psique humana e que vai nos acompanhar pelo resto dos tempos até os 80, 90 ou 100 anos de idade, que é a construção de uma imagem de si e uma noção de quem eu sou. Porque, na verdade, para a criança conseguir fazer isso ela teve que passar por um percurso em que ela teve que juntar coisas que tavam difusas. Em que a mamãe ou o papai, alguém dizia ‘olha o seu narizinho que bonitinho’ e ela começava a perceber que o outro também tem um nariz e que aquilo que tocava nela era o nariz, e que isso formava uma unidade, e orelha e a motricidade dela. ‘Ah, tá dando risadinha. Tá contentinha’.
A construção dessa noção de si só funciona através de um outro que vai me espelhar. Mesmo a criança cega ou uma tribo indígena que não tivesse espelhos teria esse espelhamento, que é o outro que vai, através né do corpo dele e dessa alteridade, mostrar pra minha correspondência entre quem eu sou, a minha aparência, o meu estilo e aquilo que é nomeado e que é visto na consciência, não é. Que é mediado pela cultura, portanto, o outro nasce e tem que nascer, isso é estrutura humana essa. O eu nasce através do outro, através do tu. E o outro nasce através do eu. São duas construções simultâneas. Como, por exemplo, o escuro só faz sentido com a noção do claro. Eu não consigo explicar para alguém o que é escuro se não explicar o que é claro, né.
A consequência disto é que esse eu, ele nasce, na verdade, ele aparece, alienado de si mesmo, é uma espécie de câmera externa que a criança coloca, o adulto também, que se enxerga de fora pra dentro. É… Seja pela opinião do outro, pela visão do outro, pela foto que você vê. Por que que é externo? Porque, na verdade, essa aparência que eu vejo diante do espelho e que, à medida que a criança vai crescendo, ela vai associando essa aparência à qualidades. Meu nariz é bonito, é feio. Eu sou alto, magro, velho, jovem, não é? Essas qualidades, elas são obtidas através de uma opinião pública. Essa criança vai ver um monte de narizes, de atrizes ou atores e concluiu: meu nariz é bonito, meu nariz é feio, melhor ou pior do que o nariz do outro, não é? A mesma coisa com relação ao seu modo de ser, a criança vai sendo enunciada pelos pais, pelos tios, ‘puxa, mas olha só, é teimoso que nem a tia Joana e tem o mesmo olhar né da vovó Caropita, mas olha só a testa igualzinha do tio Leopoldo’ e essa criança vai virando uma colcha de retalhos de teimosia de um tio, da testa do outro, olhar de uma mãe, a orelha de um parente. Essa colcha de retalhos que me constitui, que é externa à mim, é o único modo que as pessoas têm de me descrever e de eu me construir. Não há um eu que vem de dentro para fora inerente, ele é sempre uma construção com pedaços de outros que eu vou grudando em mim para construir o meu eu e que os outros no começo da minha vida constroem pra mim. Essa alienação, esse estranhamento, faz uma coisa muito interessante conosco. Nós nunca temos muita certeza de quem nós somos. Por exemplo, em termos de imagem, você se olha todos os dias no espelho e precisa se reassegurar de que você é isso daí. É uma imagem arbitrária, alguém jogou para você, lá os deuses gregos, que você fosse uma loira, um loiro, alto, baixo, gordo, tem celulite, não tem celulite, tem acne, não tem acne. Isso é arbitrário. Você não se sente assim do nada, você enxerga isso e começa a se sentir assim. Isso é uma dúvida eterna que você terá. Porque se alguém te proibir de olhar no espelho durante três, quatro meses, essa imagem que você tem de si começa a ficar difusa, você vai ter dificuldade de lembrar e saber qual a sua aparência. E esse trabalho cotidiano de você se reassegurar de quem você é, você acorda de manhã e fala ‘Puxa, tô com uma cara boa hoje hein. Uma cara disposta’ ‘Nossa, tô com olheira. Tô com uma cara péssima’. Mesma coisa com relação à sua maneira de se comportar. Alguém diz pra você ‘Mas você tá bem humorado hoje hein. Nossa que astral gostoso que você tá’ ‘Nossa, como você é chato’.
Constantemente, eu preciso baixar apps para reatualizar essa ideia de quem eu sou, que é sempre insegura. E nós passamos uma grande parte da vida tentando confirmar e desconfirmar isso, então te vi numa festa e pergunto ‘Mas você acha que eu tava bem vestido bem vestida?’ ‘Eu falei bobagem?’ ‘Aquela aula que eu dei foi boa?’. Essa necessidade de espelhamento, ela é estrutural do ser humano e quando alguém diz pra você ‘Você tem que ser mais você, você tem que ter personalidade, você não se preocupe com a opinião do outro’. Isso não é verdade. Moderadamente, você pode sim ter algumas convicções a seu respeito e ter um pouco de combustível de autoestima para voar na tempestade mesmo que te critiquem e falem mal de você, mas, em algum momento, só uma pessoa muito perturbada mentalmente é que não vai levar nada em conta o que o outro diz e ignorar a opinião pública.
Nós somos porosos à opinião do nosso parceiro, dos nossos filhos. Isso é estrutural do ser humano e necessário. É um elo que nos liga e nos mantém saudáveis. A questão é você não se perder na opinião do outro, isso é outra coisa. Mas levar a opinião do outro em conta é fundamental para que você mantenha sua saúde emocional e para que a sociedade funcione, não é? Só um grupo de pessoas que nesse processo não sofre. A maioria das pessoas, por natureza, isso também é da própria vida, da estrutura humana, sofre nesse processo. Porque cria alguma angústia, eu me certificar, não é, do que o outro tá vendo, como tá me vendo e eu internalizar isso. Tem um pequeno grupo de pessoas que tem uma genética que faz com que elas tenham uma autoestima inerente, ela já nasce com uma autoestima inquebrantável. Essas pessoas não ficam tão abaladas, elas usam a opinião do outro para se adequar em algumas regras sociais. Mas a autoestima delas não depende disso. Mas, provavelmente, a maioria das pessoas que tá me assistindo e me escutando não faz parte desse minúsculo grupo de sortudos. Então, relaxe e aceite que a opinião do outro é importante e você vai ter que aprender a filtrar algumas opiniões, mas não ignorá-la





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